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Construção de Brasília - Governo JK

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| 05.08.2016 | Rio Tapajós: Cancelada a Licença para a construção mega-hidrelétrica de São Luiz, no rio Tapajós

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Os “pesquisadores”, para os povos da floresta, são uma espécie de atualização das caravelas dos portugueses apontando no horizonte. Quando os Munduruku prenderam três biólogos, em julho de 2013, parte dos brasileiros de outros Brasis achou que os índios cometiam uma atrocidade. Selvagens, proclamou-se, num salto para trás de 500 anos. Para os Munduruku, era exatamente o contrário. Eles apenas sabiam, numa história inscrita nas gerações, que era um anúncio do fim do mundo - do fim do seu…

Os “pesquisadores”, para os povos da floresta, são uma espécie de atualização das caravelas dos portugueses apontando no horizonte. Quando os Munduruku prenderam três biólogos, em julho de 2013, parte dos brasileiros de outros Brasis achou que os índios cometiam uma atrocidade. Selvagens, proclamou-se, num salto para trás de 500 anos. Para os Munduruku, era exatamente o contrário. Eles apenas sabiam, numa história inscrita nas gerações, que era um anúncio do fim do mundo - do fim do seu…

Ao anunciar que “as primeiras hidrelétricas do tipo plataforma (São Luiz e Jatobá, no Tapajós) seriam licitadas até o fim de 2014”, a Agência Brasil entrevistou Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), responsável pela realização dos estudos para o planejamento do setor energético. Ele explicou que esse tipo de hidrelétrica “será usado em áreas da floresta amazônica onde não há ocupação humana”.

Ao anunciar que “as primeiras hidrelétricas do tipo plataforma (São Luiz e Jatobá, no Tapajós) seriam licitadas até o fim de 2014”, a Agência Brasil entrevistou Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), responsável pela realização dos estudos para o planejamento do setor energético. Ele explicou que esse tipo de hidrelétrica “será usado em áreas da floresta amazônica onde não há ocupação humana”.

Começa é um modo de dizer, porque os antepassados da atual geração já vinham de uma longa trajetória de exclusão. Buscar as raízes dos ribeirinhos das várias Amazônias, assim como dos pequenos agricultores que lá vivem em projetos de assentamento, é traçar uma genealogia da constante expulsão dos pobres que atravessa a história do Brasil. São habitantes de um caminhar, mais do que de uma terra. Até alcançar o norte do país, seu território é o êxodo.

Começa é um modo de dizer, porque os antepassados da atual geração já vinham de uma longa trajetória de exclusão. Buscar as raízes dos ribeirinhos das várias Amazônias, assim como dos pequenos agricultores que lá vivem em projetos de assentamento, é traçar uma genealogia da constante expulsão dos pobres que atravessa a história do Brasil. São habitantes de um caminhar, mais do que de uma terra. Até alcançar o norte do país, seu território é o êxodo.

No Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) de São Luiz do Tapajós, feito por um consórcio de empresas interessadas, entre elas a construtora Camargo Corrêa, afirma-se que “a interferência do reservatório” sobre a comunidade de Montanha e Mangabal será “muito pequena”, “permitindo a reorganização das propriedades sem remoção das famílias”. É sempre curiosa a escolha das palavras nesse tipo de relatório.

No Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) de São Luiz do Tapajós, feito por um consórcio de empresas interessadas, entre elas a construtora Camargo Corrêa, afirma-se que “a interferência do reservatório” sobre a comunidade de Montanha e Mangabal será “muito pequena”, “permitindo a reorganização das propriedades sem remoção das famílias”. É sempre curiosa a escolha das palavras nesse tipo de relatório.

Vilinha, em Montanha e Mangabal | No início do século 20, quando a borracha deixou de ser lucrativa, a maioria dos seringalistas partiu com o lucro que amealhou em décadas de exploração. Os seringueiros ficaram. Porque já haviam alcançado a última fronteira e não tinham mais nem para onde ir nem como voltar, mas também porque já pertenciam ao lugar. Porque já eram outros.

Vilinha, em Montanha e Mangabal | No início do século 20, quando a borracha deixou de ser lucrativa, a maioria dos seringalistas partiu com o lucro que amealhou em décadas de exploração. Os seringueiros ficaram. Porque já haviam alcançado a última fronteira e não tinham mais nem para onde ir nem como voltar, mas também porque já pertenciam ao lugar. Porque já eram outros.

O encontro entre os ribeirinhos e os entrevistadores responsáveis pela coleta de informações rendeu cenas de surrealismo explícito. Era um total desencontro de Brasis, as perguntas do questionário não faziam qualquer sentido para a maioria dos moradores de Montanha e Mangabal. Chico Augusto, por exemplo, é um dos homens mais respeitados da comunidade. Sua fama de benzedeiro corre mais que o rio. Passado dos 80 anos, ele mora sozinho, sua casa a horas de remadas da casa mais próxima.

O encontro entre os ribeirinhos e os entrevistadores responsáveis pela coleta de informações rendeu cenas de surrealismo explícito. Era um total desencontro de Brasis, as perguntas do questionário não faziam qualquer sentido para a maioria dos moradores de Montanha e Mangabal. Chico Augusto, por exemplo, é um dos homens mais respeitados da comunidade. Sua fama de benzedeiro corre mais que o rio. Passado dos 80 anos, ele mora sozinho, sua casa a horas de remadas da casa mais próxima.

Os Munduruku tornam-se “parentes”, os ribeirinhos descobrem-se “índios”. O reconhecimento de uma identidade comum, positiva, se dá como consequência da identidade negativa, conferida pelos de fora do Tapajós, o governo brasileiro. É assim que, neste momento, ribeirinhos e indígenas buscam forjar uma estratégia compartilhada de resistência.

Os Munduruku tornam-se “parentes”, os ribeirinhos descobrem-se “índios”. O reconhecimento de uma identidade comum, positiva, se dá como consequência da identidade negativa, conferida pelos de fora do Tapajós, o governo brasileiro. É assim que, neste momento, ribeirinhos e indígenas buscam forjar uma estratégia compartilhada de resistência.

Cada fragmento de palavra escrita é somado. Em 24 de fevereiro de 1875, por exemplo, Frei Pelino de Castrovalvas escreve em suas memórias os nomes daqueles “generosos que, com tanto perigo e sacrifício, salvaram a vida de um pobre missionário e 17 índios em circunstância tão desesperadoras: Antonio Martins de Bragança, Antônio Siqueira dos Anjos e dois outros com o nome de João Siqueira”.

Cada fragmento de palavra escrita é somado. Em 24 de fevereiro de 1875, por exemplo, Frei Pelino de Castrovalvas escreve em suas memórias os nomes daqueles “generosos que, com tanto perigo e sacrifício, salvaram a vida de um pobre missionário e 17 índios em circunstância tão desesperadoras: Antonio Martins de Bragança, Antônio Siqueira dos Anjos e dois outros com o nome de João Siqueira”.

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